Rotina no casamento (Enorme, mas necessário!)

outubro 23, 2009 at 7:52 pm 1 comentário

Da revista Vida Simples.

Tema: rotina no casamento

Da leitora Marcia Prado: “Sabemos que a rotina e a monotonia no casamento estão entre as principais causas de separações. Como impedir que a mesmice do casamento acabe com ele?

Vamos falar sério. Quando dá certo, o casamento é uma das melhores coisas que podem acontecer na vida de um homem. E de uma mulher, claro. O problema é dar certo. “Defina ‘dar certo’”, poderia dizer o leitor. Ok, você sabe que seu casamento deu certo se ele lhe fornece mais, muito mais, que a simples função tradicional de “constituir família”. Essa é uma idéia histórica, ligada ao equilíbrio da sociedade e à continuidade da espécie humana, defendida pela Igreja e pelas tradições. Em pleno século 21, às favas com as tradições! O que queremos é a felicidade. E se isso vai colaborar com a sociedade e com a perpetuação da espécie, ótimo.

Então vamos concordar: seu casamento deu certo quando ele é fonte de felicidade, e ela emana da relação que você tem com sua mulher ou seu marido, e não da segurança, dos filhos, do patrimônio, das aparências. Casamento é uma relação, não uma instituição, e uma relação que vale a pena não é coisa de amadores. Se deu certo, ou você tem muita sorte ou fez uma opção pensada, adulta. É isso mesmo, o casamento, em primeiro lugar, depende da escolha certa da pessoa que vai viver ao seu lado, misturando a vida dela com a sua. E essa história de que os diferentes se atraem vale para a física, não para a psicologia. Não é necessário que os dois pensem sempre igual, concordem em tudo, mas é fundamental que tenham escalas de valores compatíveis, hábitos que não se choquem e, principalmente, projetos comuns.

É simples, mas não é fácil. Mesmo que todas essas condições sejam respeitadas, o casamento ainda tem lá seus inimigos, e não estou falando da inveja dos vizinhos, e sim dos capetinhas que se acomodam nos cantos da casa e que não são varridos com firmeza com a vassoura composta de piaçaba de sensibilidade e cabo de inteligência. O casamento precisa ser cuidado, polido, arrumado, temperado; senão murcha, mofa, sofre, escorre pelo ralo da indiferença e pelo esgoto da acomodação.
A rotina é, com imensa freqüência, acusada de ser a grande vilã. “Nosso casamento não resistiu à rotina”; “a monotonia acabou com o sonho”, alegam os recém-separados, como se a responsabilidade estivesse fora deles. A monotonia não bateu na porta e entrou sem ser convidada. Ela nasceu das vísceras da relação. É um câncer que não foi detectado a tempo ou não foi tratado com competência. Mas deixe eu ver se estou entendendo: rotina e monotonia são a mesma coisa?

Rotina e monotonia

Pois vamos começar esclarecendo que estou falando de duas coisas diferentes. Rotina é a repetição sistemática de uma conduta. Monotonia quer dizer que essa conduta é chata, sem sabor.
Rotina não é necessariamente ruim e, para algumas coisas, é até necessária. Para obter bons resultados no estudo, no trabalho e na ginástica, por exemplo, é necessário que as atividades sejam repetidas sistematicamente, pois é de sua constância e somatória que aparece o resultado. Eu, por exemplo, juro que gostaria de ter mais rotina em minha vida. Atualmente meu trabalho me obriga a viajar muito, variando imensamente meus dias, o que significa que minha vida não tem rotina nenhuma. E, acredite, eu me ressinto disso. Gostaria de poder escrever todos os dias; isso faria com que eu produzisse textos mais sofisticados. Adoraria poder praticar um esporte regularmente ou, pelo menos, poder freqüentar a academia três vezes por semana durante o ano todo. Isso teria um impacto positivo em minha saúde. E por aí vai. Há várias atividades rotineiras que não são monótonas, antes pelo contrário; tornam-se desgastantes exatamente porque são feitas esporadicamente, sem a regularidade necessária à boa prática.

Casamento também é assim. Estar casado com alguém é conviver diariamente com um sem-número de pequenas rotinas que podem ser maravilhosas. Ou não? Talvez a maneira como nós encaramos a rotina seja a chance de avaliar se temos ou não um bom casamento. Ou, pelo menos, se estamos precisando fazer alguns ajustes. Estar casado com alguém significa dormir com essa pessoa todas as noites e acordar ao lado dela todas as manhãs. Gostar disso significa ter um bom casamento.

A rotina de um bom casamento é composta por um imenso conjunto de minúcias adoráveis. Beijar as costas do outro antes de dormir; levantar primeiro de manhã para ir ao banheiro e deixar a escova dele já com pasta de dente em cima da pia; servir, um para o outro, a primeira xícara do dia de café com leite; secar a louça enquanto o outro lava; ligar do trabalho no meio da tarde… São rotinas, sim, mas são maravilhosas rotinas, quando nelas há o tempero adocicado do amor em oposição ao amargo sabor da obrigação.

Estar casado com alguém é dividir os momentos que se repetem e, por isso mesmo, se aprimoram. Já a monotonia, esta é a vilã não só do casamento, mas da própria vida. Ela mata a criatividade, afoga a alegria, sufoca as relações, amaldiçoa a felicidade. Monotonia significa manter o mesmo tom, mesmo tendo à disposição uma grande variedade de tantos outros. A palavra monotonia remete à metáfora auditiva, então vale a pena lembrar que o ouvido humano normal é capaz de perceber sons de freqüências entre 15 mil e 25 mil hertz, o que lhe permite passar ao cérebro uma quantidade imensa de sons – porque este precisa disso para conectar-se com o ambiente e compreendê-lo. Não é justo nem com a biologia nem com a psicologia, muito menos com a poesia, aprisionar alguém a poucos tons. A monotonia, via essa metáfora, é desumana e destrutiva.

Luz e a sombra

Voltando ao casamento, ele se alimenta da rotina, mas é envenenado pela monotonia. Repetir as ações é o único modo de aprimorá-las e chegar à excelência, no dizer de Aristóteles, que amava a sabedoria. Não gostar das ações que se repetem é o melhor meio de chegar às trevas, como queria Mefistófeles, que odiava a luz. Acompanhe esta história:
“Emma era uma bela e jovem mulher, inteligente, encantadora. Casou-se com Charles, médico recém-formado, com um futuro promissor. O casamento perfeito, diria qualquer um; pareciam ter sido feitos um para o outro. Mas Emma, não obstante amasse e respeitasse Charles, em nome de quebrar a rotina, resolve traí-lo. Como não se tivesse saciado, continuou a busca, colecionando amantes e aventuras até que isso a conduziu, junto com Charles e toda a família, à ruína moral, social e financeira”.

Esse breve parágrafo é uma síntese pobre do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, o escritor francês que, no século 19, provocou discussões acaloradas e foi alvo de um processo judicial por promover a imoralidade com sua obra. A acusação ajudou a colocar a obra de Flaubert entre as principais referências à complexidade da alma humana. Absolvido, acabou dedicando a obra ao promotor que o acusava, com a ironia inteligente que caracteriza seus textos.

Emma odiava a rotina monótona da vida pequeno-burguesa de esposa de médico em uma localidade do interior da França, mas, em vez de tentar melhorar sua vida, influenciando seu marido entediante com alegria e emoção, buscou aventuras fora do casamento. A partir desse expediente, não só não encontrou o que buscava como ainda acabou com o pouco que lhe restava. A virtude de Emma – sim, ela tem virtudes – é ser inconformada, mas seu engano é o foco de sua atenção. Ela não tenta mudar sua vida e sim construir uma vida paralela. Flaubert foi um escritor de obra pequena, mas reconhecido pela perfeição de seus escritos. Gastou cinco anos escrevendo Madame Bovary, e sempre dizia que estava à procura da mot juste, a palavra exata que servia para representar uma idéia. Se vivesse hoje, a mot juste para madame Bovary talvez fosse a de neurótica insaciável, daquelas que buscam o lenitivo para sua vida vazia em shoppings, motéis e bares. O tipo da pessoa que procura a solução onde o problema não está.

Não, o problema não está na rotina, mas na monotonia. Ainda que haja forte conexão entre ambos, esses substantivos que se adjetivam com freqüência não são sinônimos. A rotina monótona difere da monotonia rotineira. A primeira precisa de atitude, a segunda de tratamento. Se a rotina, que é inexorável, está monótona, precisa de novos temperos. Se a monotonia já virou rotina, é possível que precise de novos ingredientes.

Não entendeu? Vou tentar de novo: se seu casamento está monótono apesar de ter componentes construtivos, que valem a pena, basta que algumas iniciativas sejam colocadas em prática. Que tal um motel depois de um show? Por que não mandar flores para sua mulher sem motivo algum, ou fazer uma massagem relaxante em seu marido-executivo-estressado em plena quarta-feira? Ou então preparar um romântico jantar a dois (veja como na matéria “Mesa para dois”). Esses são exemplos de temperos, de especiarias que dão sabor e impedem a deterioração da relação. Amanhã a vida continua, mas parece que o sol está mais brilhante e o trânsito está fluindo melhor. Mas se o desencanto se instalou, e não há mais por que lutar, melhor que prolongar a agonia é ser honesto e enfrentar o trauma e a dor que sempre acompanham as grandes decisões, e partir para outra.

Dona Flor, personagem inesquecível de Jorge Amado, amava Vadinho pelo lirismo de sua vida, mas sofria com sua falta de responsabilidade. Morto Vadinho, a viúva sofre, chora, conforma-se e, passado um tempo, casa-se de novo. Dessa vez com Teodoro, farmacêutico respeitado, correto, estável, com quem ela conhece uma vida nova, segura, calma… mas monótona. Então o escritor baiano aponta para o final feliz. O espírito do Vadinho volta, e Flor, não resistindo aos encantos do falecido marido, torna-se sua amante. Eis que a morena conhece então a felicidade através de seus dois maridos. O que lhe dá monótona segurança e o que lhe fornece a aventura de uma vida de paixões.

Não, o autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos não quer sugerir que você tenha dois maridos; ou duas mulheres. Ele apenas lembra que todos nós temos, convivendo dentro de nossos espíritos, Teodoro e Vadinho, Apolo e Dionísio, lógica e paixão, rotina e aventura. Basta abrir a porta certa no instante correto.

Eugenio Mussak

Casal 20

Pare de procurar o par perfeito, ele não existe. Saiba como se virar com um parceiro normal, de carne e osso, e ser feliz para sempre
Há dois anos, fui arrebatado pelo encanto de Mariana, um encantamento que persiste em meus poros até hoje e foi coroado no fim do ano passado, quando nos casamos, em uma cerimônia linda. Era uma noite quente, enluarada, cheia de estrelas e de amigos e parentes queridos, que abençoaram nossa união. Seria uma imagem perfeita para fechar uma reportagem sobre casamento, um final feliz. Mas não serve para este texto. Porque o assunto aqui é justamente o que vem depois do final feliz. Afinal, quem é ou foi casado sabe que as delícias e os desafios de uma relação aparecem dia após dia. Ano após ano.

Avaliadas a frio, as estatísticas demográficas sugerem que o casamento está na lista de espécies ameaçadas de extinção. Segundo o IBGE, nunca houve tantas separações e divórcios no Brasil. Mas essa impressão é falsa. Há muita gente feliz no casamento. Gente que desfruta, no dia-a-dia, do que dizem inúmeras pesquisas científicas: os casados vivem mais e melhor. O que você vai ler a seguir é um guia básico, com o arroz-com-feijão do casamento feliz, mas um arroz-com-feijão bem temperadinho, elaborado com as dicas de quem estuda essa receita há anos e de outros que tiram o sustento diário dessa iguaria que é a união bem feita.

É claro que a receita definitiva é algo muito pessoal. Dê os mesmos ingredientes básicos a diferentes casais e você vai ver nascerem relações muito diferentes.

Para sentir prazer

Primeiro, vale a pena entender o sentido dessa tradição. Até bem pouco tempo atrás, o casamento era símbolo da união de interesses e acordos familiares: negócios entre nações, tratados de paz, alianças para guerras, interesse pelos dotes familiares ou por status. Tudo era motivo para unir duas pessoas, menos a felicidade delas. Aos homens, a missão era a de prover e guardar o lar. Às mulheres, cuidar da casa e gerar herdeiros. E só.

Essa idéia de escolher o cônjuge pela vontade, pela paixão ou pelo amor, que parece tão óbvia e imprescindível, foi inventada há cerca de 200 anos no Ocidente. E só ganhou espaço porque trouxe consigo o rompimento de um tabu, o de que o sexo no casamento tinha como única finalidade a procriação. O fim dessa exigência liberou o pessoal para desfrutar do prazer na cama, mas teve um efeito colateral: era preciso desejo, o que complicava e muito os casamentos por conveniências sociais. Não deixa de ser irônico constatar que foi a vitória do amor carnal, caliente e apaixonado que botou em crise o modelo de casamento. “Esse conceito levou logicamente a outro: se alguém entra no casamento por sexo e prazer, deve poder deixá-lo se faltar isso”, diz a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora de Conversas na Varanda e outros livros sobre o assunto.

Mundo de ilusões

Não é novidade que os casamentos têm durado pouco. Desde que a separação e o divórcio passaram a ser aceitos, a duração média dos casamentos agora é de 10,5 anos, menos que na época das uniões arranjadas, quem diria, e muito menos que o desejado “para sempre”. Culpa do espírito consumista destes tempos, afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no livro Amor Líquido. Estamos tão acostumados às relações de mercado, diz ele, que queremos aplicá-las a tudo. Esquecemos que, em um casal, a recompensa não é imediata como no armazém. Quem paga com carinho e atenção nem sempre recebe na hora a retribuição que desejava – às vezes a encomenda não chega nunca. Sem paciência para esperar ou um Procon para reclamar, muita gente resolve mudar de fornecedor, e vai buscar o que quer no armazém do vizinho. Sim, porque, no mercado do desejo, o que não faltam são propagandas de bons produtos, bons negócios e até promoções. Casar, nesse sentido, parece até um mau negócio, pois estaríamos perdendo todo o resto.

Coincidência ou não, cresce também a porcentagem dos que, após um casamento desfeito, optam por viver sós. “A solteirice sem compromissos é uma opção menos arriscada e mais compensadora para se obter prazer, em que não se sofre e se curte mais”, escutei de alguns. E de repente a solteira que ficou para titia e o tio solteirão deixaram de ser motivo de chacota e suspeita da família, como até bem pouco tempo atrás, para serem invejados.

Um fator decisivo para a crise das relações, dizem especialistas, é a imagem distorcida que se tem hoje do casamento. A idéia de o que é se casar, e de o que o casamento adiciona a sua vida, não bate com a realidade. “A idéia que as pessoas fazem do casamento é do encontro do par perfeito, com quem a vida seriam só flores. Isso é reforçado pelas novelas, em que ou o casal é hipócrita e não se ama mais ou é muito feliz e casa no último capítulo. O casamento então é mostrado como o inferno ou o passaporte ao paraíso, nunca em sua forma real, nunca possível”, diz o psicanalista reichiano Arnaldo Bassoli.

Então, quais são os passos para a felicidade no casamento?

Saiba quem você é

O casamento real começa antes do primeiro encontro. Começa você com você, cara a cara. Você precisa saber quem você é e o que o faz feliz. Isso inclui saber do que você gosta, o que é imprescindível. Mais: saber se fazer feliz sozinho. “Esse conhecimento sobre si mesmo é fundamental para que não ocorram dependências nas relações”, diz a educadora Adriana Friedmann. A dependência pode ocorrer em qualquer campo da vida do casal. É o marido que não sabe lidar com dinheiro e entrega a tarefa à mulher, a mulher que nunca escolhe nada e deixa todas as decisões para o marido, até o sabor da pizza – “O que você quiser está ótimo, querido”. E dependência não é bom para a vida do casal.

“Quando se casa mais maduro, às vezes até com a vida já desenhada, fica mais fácil você saber o que está fazendo. Você compreende com facilidade que aquela pessoa se encaixa com o que você gosta, porque você já aprendeu a ser feliz”, diz o velejador Amyr Klink, casado há dez anos com Marina. “É sua a responsabilidade de fazer dos seus sonhos uma realidade”, diz Moacir Mazzariol Soares, monge budista do Templo Zu Lai, em São Paulo

Case do seu jeito

Pode parecer esquisito, mas tem muita gente que imita o casamento dos pais. Pode ser em pequenos detalhes, como o pingüim em cima da geladeira, ou no jeito de conversar com os filhos. Para Marisa Thame, no livro Como Passar Sua Vida a Limpo, na infância aprendemos todos os traços dos pais. E depois os repetimos inconscientemente quando começamos a nos relacionar. É normal. Uma parte dessas lições será útil e adequada a nossa vida. Outras não. Para piorar, esperamos que o parceiro participe da imitação, num teatrinho cujo roteiro só existe em nossa cabeça. O pior é que na do parceiro há outro script, que ele também espera que você acompanhe. A mulher que esperar, hoje em dia, que o marido seja o provedor, que decida tudo, como foi seu pai, vai ter problemas para ser feliz no casamento.

Mas os pais não são os únicos modelos. Estereótipos e sensos comuns que chegam até você pelos mais diversos canais, dos ditados populares até as propagandas na TV, vendem uma idéia do casamento que nem sempre é sábia e adequada à vida a dois. “Casar dá trabalho”, “farra só fora de casa” ou “santo de casa não faz milagre” são exemplos de idéias preconcebidas – e não muito lisonjeiras – sobre o que é casar. A principal delas, e a mais impactante, é que só dá para ser feliz fora de casa, um conceito que serve de premissa para 90% das piadas sobre casamento.
Para aprender a viver da sua forma, o primeiro passo é entender por que agimos como agimos. O segundo é agir por vontade própria, e não pela dos outros. Não tente mudar o outro Mudar hábitos dá um trabalhão. Incluir exercícios na rotina diária, por exemplo, ou parar de fumar. Imagine mudar o outro. Pois é o que muita gente espera do casamento: que ele mude o outro. “As pessoas acreditam que o outro pode ficar melhor assim, assado. Idealizam. Ideal mesmo é ser feliz com o que a pessoa é, não com o que ela pode vir a ser”, diz Bassoli. Os projetos de reforma do parceiro seriam mais eficazes se aplicados a nós mesmos. A roupa fica jogada pela casa? Junte. Cansa juntar a bagunça do outro? Converse. Não teve efeito o pedido? Seja menos crítico e deixe as roupas jogadas pela casa. Só não vale brigar todo dia por causa da louça na pia, dos atrasos para a janta ou se ela falou demais do trabalho. “Ame o outro como ele é. Aprenda com ele, colha o fruto da verdade de ver o outro, e a si, como são”, diz o monge Moacir.

Talvez você esteja pensando: “Claro que ele (ou ela) pode melhorar!” Sim, sem dúvida a evolução é possível para todos. Entretanto, cada um é que sabe o que reformar em si, não só para agradar alguém, mas a si mesmo. Até porque existem partes da pessoa que são sua marca, sua personalidade. Um torcedor fanático não vai mudar de time para agradar a mulher. E, se mudar, talvez perca parte de seu encanto.

Seja cúmplice

Ter vida própria, ser apaixonado pelo que faz, cuidar dos próprios afazeres e sonhos, ultrapassar suas fronteiras, crescer. Quando nossa energia criativa está solta, ativa, estamos plenos, os olhos brilham. E esse brilho alimenta a admiração e a paixão de quem está ao nosso lado. “A pessoa que sabe lutar pelo que acredita tem uma disposição para ser feliz que nos instiga a querer estar sempre perto”, diz Marina Klink, produtora de eventos e casada com Amyr.

Mas a energia criativa não está confinada na relação a dois. Há experiências ricas fora dela, no trabalho, com os amigos ou em uma viagem. E isso vale para o outro, também. Você está pronto a incentivá-lo a quebrar suas barreiras e avançar? “Senti que meu marido estava comigo quando ele me apoiou abertamente a fazer uma viagem de trabalho, para a Nova Zelândia, quase só com homens. Por um mês”, conta a esportista Lisa Grinfeder. “Ele só quis saber se eu estava feliz. E ponto.” Com isso, o casamento vira um caminhar junto. “Ninguém possui ninguém, somos apenas bons companheiros de jornada”, comenta o psicanalista Bassioli. Isso vale para tudo. “Não é estar perto que conta. Você pode estar o tempo todo junto e estar longe do coração”, diz Marina.

Doe-se

O casal está sentado frente a frente. Com as mãos seguras atrás das costas, ambos pedem amor, carinho, prazer. Mas, como continuam esperando o outro, ninguém recebe o amor. Para o pensador Jiddu Krishnamurti (1895-1986), criador dessa imagem no livro Sobre a Liberdade, a postura paralisada e pedinte seria um vício individualista das pessoas: o costume de receber amor, antes de oferecê-lo. Me faz um cafuné? Ah, que delícia. Só que na hora de retribuir bateu uma preguiça…

É natural que quem receba o carinho relaxe muito e nem possa se mexer. A idéia, aliás, deveria ser essa. Só que o senso comum sobre “amar” é este: eu dou para você se você der para mim (não é um trocadilho). É um amor condicionado. O resultado é que ninguém entrega o amor. Ou o entrega cobrando, como um boleto de banco: massagem + cafuné = um beijo agarradinho. E assim tudo fica burocrático, exigente, impositivo, sem excitação, sem liberdade. “Entregue seu amor. Perca a preguiça e parta para a ação, o tempo todo”, diz o psicanalista Bassioli. Ele experimentou isso em seu próprio casamento. Passou a não pensar em receber amor em troca. Assumiu o que chama de “atitude amorosa o tempo todo”. “Eu procuro dar toda a atenção que posso o tempo todo que tenho disponível. Não é quantitativo o critério, pois muitas vezes tenho pouco tempo. Para que isso seja efetivo, depende da qualidade dessa atenção.”

Saiba conversar

Pintou uma sensação ruim? Ouviu algo que não caiu bem? E aí disse uma frase dura para rebater? Ficou aquele silêncio cinza? Melhor resolver logo. Pequenas mágoas vão se represando e quando você menos espera está gritando por causa de um copo sujo na pia. O copo pode ter lembrado um outro acontecimento, e aquele outro também, e aí você resolve falar de tudo. Eu costumava fazer isso. Quer dizer, ainda faço. Fico achando que as coisas devem ser perceptíveis, que, se eu senti, minha mulher deve perceber também. Como se ela andasse por aí com uma bola de cristal.

Falar das pequenas mágoas é vital. E tem que ser do jeito certo: com atenção, com bons ouvidos, com tempo para cada um. Além de evitar o acúmulo de ressentimentos, serve de aprendizado. Uma hora ou outra podem acontecer problemas de verdade, e então vai ser útil saber falar um com o outro, sem inibições. Para quem já conseguiu entrar em acordo sobre como apertar a pasta de dente, decidir a compra do apartamento vai ser bico.

E não faltam assuntos para treinar a comunicação a dois. Se você precisar de um estímulo, eis alguns tópicos infalíveis para discussão: desejo (ou a falta dele), solidão (ou necessidade de mais espaço), sonhos e frustrações. “Nossa relação nasceu em meio a incríveis conversas, muito amigas, íntimas, surpreendentes”, conta Maria Fernanda Cardoso Santos, psicóloga de São Paulo, que mora em Natal. Casada com Maurício há cinco anos, Fernanda ainda admira as conversas que eles mantêm, e as considera o grande segredo deles.
Agora, todo mundo sabe, mas vale comentar: tem papos que vocês vão preferir ter fora da relação. Muito natural, por sinal. Preenchemos uma parte das necessidades afetivas dos nossos pares. Outras partes são nutridas pela família, parceiros de trabalho, colegas da faculdade ou do futebol.

Ah, sim. Um último toque sobre as conversas: paciência. Achar que uma conversa vai melhorar tudo de uma vez pode ser frustante. Muitas vezes, são várias conversas que trazem uma boa compreensão sobre algo e, finalmente, uma mudança de atitude. “Mostrar seu sentimento e acolher o do outro, sem depois um dia usar isso contra ele, ou cobrá-lo, é fundamental”, diz Monja Coen, do Mosteiro ZaZen, de São Paulo. Transformações levam tempo.

Confie sempre. Respeite

As pessoas se apossam daquilo que amam, para garantir a repetição daquele afeto tão bom, e isso gera problemas: ciúmes, controles, cobranças. “Há um acordo silencioso, porém muito presente, que exige a fidelidade entre o casal”, diz Regina Navarro Lins. “Mas a libido, o sexo, é algo individual. Portanto, a sexualidade só pertence à pessoa, ao que ela se dispuser a viver”.

Como ficamos então, diante da realidade de que o outro é tão livre para sentir e viver quanto você? Sim, você sente desejo por outras pessoas, mas seu(sua) parceiro(a) também. O que fazer? Confiar. Não é o que você sente, mas o que faz com isso que vai contar. Da confiança e do respeito mútuos pode nascer uma fidelidade espontânea.
Ao juntar tudo…

É emocionante ouvir casais falando de casamento. Principalmente quando, mesmo cheios de diferenças, eles acharam sua fórmula para ser feliz. Para todos, a pitada de felicidade no casamento é o foco no positivo. No fim, o que decide a felicidade do casal não é a escolha do parceiro ou da parceira ideal, mas como você se coloca diante dessa pessoa, como lê seus gestos, como age. Não há príncipe encantado, não há a mulher da sua vida. O segredo para ficar bem não está no outro, mas em você. Casar por amor pede a você atenção, consciência. Exige uma coisa só: que você esteja aberto a desenvolver o amor dentro de si. Vai lá. Experimenta. De mãos dadas. Com os olhos nos olhos.

Infinito posto que é chama

Em busca de sinais de vida inteligente além dos limites da paixão, descobrimos estudos e histórias dizendo que o casamento ainda pode ser bem legal.
Há milhares de anos, nossos antepassados tiveram de criar uniões aos pares. Só assim os machos puderam partir com tranqüilidade para suas caçadas. É que só quando reconheceram quem era de quem na aldeia eles conseguiram dissipar o temor de que outro macho teria o atrevimento de aparecer enquanto estavam ausentes e se aproveitar da situação (diga-se, da fêmea alheia).
Como bem observa o antropólogo inglês Desmond Morris, surgia, ainda nas cavernas, a obrigação de o casal se apaixonar e manter-se reciprocamente fiel. Morris é um craque em explicar o comportamento humano, e para isso utiliza teorias da biologia aplicadas aos animais. E o modelo daqueles primatas tem se mostrado muito útil até hoje.

A unidade beneficiava os descendentes. Um macho não precisava mais lutar contra outro para preservar sua herança genética e, ao fim e ao cabo, o papel de cada sexo se tornava mais diferenciado. Eis que evoluímos. E o casamento se viu diante de outros dramas. Aliás, para alguns amigos meus, casamento já é sinônimo de novela mexicana.

Cadê a fórmula mágica? O principal desses dramas passou a ser a obrigação de o casamento se constituir em uma “união perfeita”. Assim, o casamento seria o que nos faria viver experiências extraordinárias, como num conto de fadas. Se fosse assim, os casamentos não estariam durando cada vez menos por aí (e eu não estaria escrevendo este texto). Claro que o amor é lindo, que o casamento foi inventado para dar certo, mas é um tremendo desafio manter-se casado.

Fui conversar com pessoas que estão casadas (entre elas, algumas que se separaram e casaram outra vez) para saber como se mantêm fiéis aos velhos instintos de preservar a união. Queria encontrar maridos e mulheres, se não vivendo no nirvana, ao menos lidando bem com as tensões da vida a dois. Teve gente que se recusou a dar entrevista (“Ah, esse assunto, só entre quatro paredes”).
Felizmente, encontrei as pessoas certas, muitas idéias e até algumas chaves do conhecimento para ajudar no sonho do casamento bom. Ninguém vai encontrar aqui, nem em lugar algum, uma fórmula mágica capaz de fazer a relação funcionar. Mas as sabedorias, os mitos, as estatísticas, assim como a leitura de algumas experiências que dão certo, poderão servir para alguma coisa, quem sabe até que a morte os separe.

Paixão não é o essencial O assunto me interessa. Eu e minha mulher estamos casados no papel (e na igreja, para alegria dos pais) há cabalísticos sete anos. Juntos, estamos desde a adolescência. Nesse tempo, incentivamos muita gente a casar (até já celebramos uma boda!). Fiquei surpreso ao me ver aceitando a idéia de que, para ser feliz a dois, paixão não é fundamental.
Todos nós fomos acostumados a esperar pelo amor romântico, tão bem ilustrado no mito de Tristão e Isolda. Os jovens se enamoram, mas não conseguem viver o grande amor. E continuam alimentando a esperança de vivenciar o êxtase prometido pela paixão que nasceu entre eles.
A história nos ensina que essa índole romântica é na verdade a sensação que qualquer pessoa pode ter, mesmo estando casada, de se dar o direito de jogar tudo para o alto e partir para viver uma grande aventura se tiver essa oportunidade. É como se houvesse alguma coisa à nossa espera nos oferecendo o significado e a empolgação que faltam (ou estão acabando) no casamento.
Gerenciando os humores Na trilogia He, She e We, o psiquiatra Robert Johnson tenta esclarecer esse dilema. Em sua obra, ele afirma que o casamento é aquilo que podemos resumir numa única palavra: estabilidade. E é por isso que tanta gente o acha tedioso.

Seguindo esse raciocínio, a relação a dois não deve ser, então, uma felicidade absoluta ou um inferno na Terra. É o caminho do meio. Por isso, não podemos permitir que nossos humores nos possuam. Por que quando isso acontece perdemos logo a capacidade de discernimento.

Veja o que escreve Johnson: “Quando o marido acorda com o ‘pé esquerdo’, a mulher pode-se perguntar o que foi que ela fez. E vai perguntar ao marido e ele, de mau humor, acaba achando que ela tem alguma culpa pelo que ele está sentido. A situação se agrava e surge um desentendimento”.

Nessas horas, conforme Johnson, o melhor que a mulher tem a fazer é se recolher e esperar o marido voltar ao normal. O marido, por sua vez, fará um tremendo favor se for mais cauteloso, gentil e compreensivo quando vir um olhar angustiado na esposa. Mas nem tudo são flores. E só a paciência levará ambos a tal comportamento.

Morar junto é uma arte

Homens e mulheres vivem o casamento de forma diferente. O mito grego de Eros e Psiquê não deixa meias palavras: para a mulher, o casamento tem um quê de morte. Parece piada nos dias atuais, mas a donzela que é levada para o alto da montanha para desposar a Morte é a mesma que entra na igreja vestida de branco. Sendo fiel ao que escreveu Johnson, Psiquê é a mulher que vai casar. “O marido virá, mas é uma situação trágica. A donzela realmente morre no dia de suas bodas: uma etapa de sua vida se extingue.”

O que tiramos disso para nossas relações? Primeiro, que há dualidade no casamento. E nós todos só tentamos fazê-lo cor-de-rosa. Alegre e feliz. Ora, só quem nunca morou com outra pessoa (nem precisa ser casado, pode ser amigo, irmão, parente) imagina conseguir viver assim. Brigas, desapontamentos, ilusões e desfeitas fazem parte do jogo. E quem joga bem com elas joga bem com o casamento.

O caso da alma gêmea

Também podemos tirar do mito a lição que, não dando importância à parte que morre, estamos abafando emoções que um dia vão aflorar. Quando elas vêm à tona, a mulher roda a baiana. E desiste do casamento.

Foi assim com a aposentada Marynez Vidal, de 62 anos. Casou novinha, sonhando com um conto de fadas, na crença de que bastava considerar o marido um gato e a felicidade estava garantida. Separou-se 11 anos depois. Teve duas filhas. Foi ela quem deu um basta e foi tocar a vida.
Marynez esbarrou tempos depois com o primeiro namorado, o motorista João Oscalino Souza, de 61 anos. Ele também saía de um casamento de 20 anos. Marynez e João, já amadurecidos pelas primeiras experiências, resolveram tentar outra história de amor. Estão casados há 19 anos. “Para mim, não existe outra explicação: João é a minha alma gêmea”, afirma Marynez. “Casamento é uma ligação espiritual que só o amor verdadeiro mantém”, diz João.

A verdadeira graça

Mas existe amor verdadeiro? Quais os sintomas? Vimos que a paixão não é fundamental. Na verdade, livrar-se das projeções criadas pela paixão é um grande favor que fazemos a nós mesmos. Livres disso, descobrimos o ser humano que existe no outro. Ora, é aí que está a graça!
Porque, ao enxergar isso, temos a oportunidade de construir uma relação nova, onde convivem um, o outro e os dois juntos. Só o amor conduz a esse processo, só ele leva a relação a outro estágio de consciência. E, no casamento, o amor deve ser compreendido como afeto e compromisso. Até amizade. Por sinal, em um dos ritos hindus do casamento, o noivo e a noiva juram solenemente: “Você será meu melhor amigo”.

Casamento espiritual

Com esses três ingredientes – vamos repetir: afeto, compromisso e amizade – dá pra dormir e levantar com o mesmo alguém durante toda uma vida (fora as outras, como acreditam os espíritas). São esses três elementos que alicerçam o caminho para uma possível revelação: encontrar a alma gêmea. Eu acredito que ela realmente exista, porque já a encontrei. Marynez e João, pelo que dizem, também.

A bióloga Marta Ricoy, de 45 anos, durante a entrevista lembrou que no Oriente existe a expressão Anan Cara, que significa “alma amiga” (olha a amizade citada outra vez). “A Anan Cara é aquela pessoa com quem temos uma aproximação que permite o contato em diferentes níveis – físico, mental e espiritual”, diz Marta, que também é professora de yoga. “A minha é o meu marido.”

Sem pular a cerca

Quando alguém tem certeza de que está casado com sua Anan Cara, é natural que não passe pela cabeça a possibilidade de ser abandonado ou de romper tudo e partir para outra. Quem tem consciência de que está com a pessoa certa aceita até morar em cidades diferentes, porque o trabalho as obrigou a isso.

Marta Ricoy é casada com Agnaldo Alves, de 48 anos, e juntos viveram essa experiência. Moravam em Campinas, com os filhos, ele dando expediente em São Paulo. Aí, Agnaldo foi trabalhar em Curitiba. “Algumas amigas diziam que meu marido não passaria tanto tempo longe sem pular a cerca”, diz Marta, que não deu bola para isso. Confiou e aceitou vê-lo só nos fins de semana.
Aí a situação inverteu: foram todos para o Paraná e Marta era quem ia e voltava, para não largar o emprego em Campinas. “Agora, eram meus amigos que perguntavam como eu aceitava essa situação”, lembra Agnaldo. Casados há 25 anos, levaram a distância numa boa até conseguirem parar em São Paulo, todos juntos.

E a vida deles, a exemplo da vida de todo mundo, continua dando voltas. Há cinco meses, o casal perdeu o filho mais velho, de 25 anos. “O afeto que temos um pelo outro não permitiu que um de nós se recolhesse no sofrimento”, diz Marta.

No fim, a grande surpresa

Depois de ouvir a história de Marta e Agnaldo, recorri mais uma vez à obra de Robert Johnson – o autor dos livros He, She e We, que dissecam o casamento usando uma ferramenta confiável: os mitos. E ali encontrei, preto no branco, várias confirmações sobre o quanto são inseparáveis a amizade e o compromisso. Tudo indica ser essa união a essência do amor verdadeiro.
E, quando ele existe no casamento, o marido ou a mulher estão sempre encorajando um ao outro. Mesmo que um descubra os defeitos do outro – o que é certo acontecer –, não caem na tentação de criticar-se, optando por segurar as pontas. “Amar é saber falar e calar”, diz a psicóloga Maria Angélica Sampaio, 49 anos, casada há 21 anos com o engenheiro Antônio Sampaio, 48 anos.
É preciso mesmo ter paciência, confiança e compreensão – e todos os casais que escutei concordaram com isso. Nesse ambiente, a vida a dois pode nos conferir ao menos uma grande surpresa: descobrir que não é nem tanto amor o que precisamos, nem nos sentirmos amados, mas sim ter coragem e determinação para amar. E sempre que possível, claro, não deixar a toalha molhada em cima da cama ou a roupa jogada no chão.


Ao pensar num jantar a dois, você certamente imagina uma mesa ricamente ornada, com muitas flores frescas; uma meia-luz de velas bruxuleando docemente; uma louça retirada dos armários especialmente para a ocasião; John Coltrane entoando solos de saxofone ali ao lado; e uma seqüência de pratos pretensamente afrodisíacos (ostras, claro, para começar) desfilando entre as taças de champagne. Mas será que é assim mesmo que tem que ser um jantar a dois? Uma cena de comercial de TV? Não haverá também cumplicidade, até mesmo sedução, se um casal se encontra para comer e os dedos de quem cozinhou ainda recendem a alho, se no lugar de prataria ambos comem com as mãos, se a sobremesa é degustada no tapete da sala – mesmo que o tapete esteja atulhado de brinquedos fora de ordem deixados pelo filhos? Sim, não é possível ter um jantar a dois, aconchegante, mesmo que os filhos já tenham sido feitos, anos atrás, e não estejam previstos para serem concebidos somente dali a pouco, depois do café?

Nada contra jantares românticos, à luz de velas, onde os pratos refinados e os vinhos fantásticos talvez sejam apenas coadjuvantes de um cenário (e uma encenação) de sedução. Eu mesmo já fiz vários – para futuras namoradas minhas, mas até mesmo para mulheres que sequer conhecia (e jamais vim a conhecer); isso num tempo em que amigos me pediam para passar a tarde de sábado na casa deles cozinhando para suas vítimas – que até hoje, após a comilança, sequer suspeitam que não foi seu pretendente quem preparou os pratos…

Sendo assim, não posso mesmo ser contra o jantar romântico convencional, mesmo que o cardápio se torne secundário – o que é compreensível quando o principal acepipe é na verdade o parceiro convidado. Mas sobre isso já se escreveu bastante. Cada um deve ter em casa um mínimo arsenal para essas ocasiões – guardanapos de verdade (é indelicado receber uma convidada com guardanapos de papel, por favor) e música adequada (que não precisa ser um chavão: a escolha vai do universo de cada um; por que um casal punk teria que ouvir jazz?).

Resta escolher um menu que, além de simpático e gostoso, tenha três outros atributos. De um lado, não requeira muito tempo e sujeira na hora de finalizar: pode ser que os pratos tenham ocupado muitos dias de trabalho antes – se o anfitrião gosta mesmo de cozinha, isso não é um problema; o que pode se tornar um problema é deixar a convidada morrendo de fome porque na hora de comer nada está pronto ainda, e o jantar é precedido por uma espera angustiante. O segundo atributo é que o prato não produza muita gordura e fumaça na hora de ser finalizado: é meio desagradável ter que conversar com alguém no meio de uma nuvem de gordura, ou não poder sentir o aroma do vinho por causa do cheiro de fritura que ficou no ar. (A receita sugerida nas próximas páginas, de medalhões de vitelo grelhados em pouco azeite de origem extravirgem, não chega a produzir tal efeito colateral.) Por fim, o terceiro atributo: convém que o menu não seja constituído de pratos muito pesados ou de difícil digestão. Existe, para um brasileiro, coisa melhor que uma boa feijoada? Não. Existe, para um galanteio, coisa pior que uma feijoada à noite? Mesma resposta: não mesmo.

A quatro mãos

Mas um menu para dois não significa necessariamente uma cantada, uma surpresa para alguém a ser seduzido. Pode ser também um gostoso momento de convivência a dois, desde o princípio. Cozinhar a quatro mãos é um esporte delicioso, e pode ser praticado sob diversas modalidades. Um casal que gosta de cozinhar só terá a ganhar – em convivência, em afeto e também em crescente estímulo sensual – se dividir as tarefas na cozinha antes do repasto. Cozinhar junto é muito bom. Pode ser um ato de criação conjunta, ambos picando, misturando, grelhando – mas, nesse caso, atenção!, há uma regra básica: é preciso antes definir quem é o chef da ocasião. Sim, porque, da mesma forma que uma relação pode crescer ao longo de um mise-en-place – desde que combinado previamente quem vai decidir a quantidade de salsinha e o momento de colocar a manteiga (no sentido culinário, é claro) –, a relação pode azedar se, mal-humorados, ambos disputarem quem decide quanto colocar da acidez do limão.

Pequenas rusgas podem deixar cicatrizes fundas como um corte da melhor faca japonesa. Então, antes de mais nada: é preciso definir quem decide como fazer a polenta, quem é o dono do bife, e cada um ter a humildade de aceitar o que o chef de cada prato mandar. Isso definido, a convivência na cozinha pode ser profícua, e o clima de camaradagem pode até mesmo suplantar os resultados culinários. A polenta ficou seca? A carne, muito passada? E daí? Afinal, quem é que quer comer, a essa altura, depois que as quatro mãos se ocuparam tanto mutuamente?
E, finalmente, é bom não esquecer que comer a dois – e igualmente preparar a comida – pode ser um gesto do cotidiano, e tão estimulante quanto aquele feito excepcionalmente nos tempos de sôfrega paquera. E mais: estar a dois na cozinha não requer prática e tampouco habilidade dos dois (apenas de um). Imagine-se cozinhando para alguém de quem você gosta.
Na melhor das hipóteses, claro, a pessoa estará compartilhando facas e fogões com você (“melhor das hipóteses” se ela souber o que está fazendo: pode também ser um desastre, mas o amor perdoa quase tudo). Entretanto, existem outras hipóteses.

Por exemplo, aquela em que sua cara-metade não sabe cozinhar um ovo – e nem mesmo ligar o fogão: mas, em compensação, sabe deixar sua louça um brinco! (Você sabe que, nas melhores cozinhas profissionais, o chef usa a frigideira e simplesmente a larga na mão do ajudante, que vai levá-la para lavagem e trazê-la impecável em minutos – o sonho de todo cozinheiro amador.) Um ajudante que, além de ir limpando toda a sujeira que você vai fazendo, ainda por cima te ama, é algo que não tem preço.

Imagine ainda – esta é outra hipótese – que você tem a seu lado alguém que te ama, que vai amar o que você está cozinhando, mas não cozinha nem lava. Se pelo menos estiver a seu lado, sentadinha na cozinha, saindo apenas para trocar o CD, compartilhando uma garrafa de vinho e as amarguras que o dia infernal deixou em vocês, já terá ajudado a criar um gostoso momento a dois.
Depois é comer juntos, acabar o vinho, a música. Sexo em seguida será um bônus não desprezível, mas na verdade, mesmo, pode até ficar para depois: às vezes uma sobremesa, um sofá, uma coberta e um bom filme (desses que antecipam o sono reparador) já serão por si só recompensa suficiente pelos bons momentos criados a dois na cozinha.
Sugestão: prato principal Medalhões de vitelo com gremolata e polenta (para duas pessoas)
A receita foi inspirada num prato do restaurante Café Boulud, do chef francês Daniel Boulud, de Nova York. Um prato sem grande complicação, que pode ser preparado rapidamente a quatro mãos. Apesar de o chef ser francês, o prato utiliza a gremolata e a polenta, duas receitas tipicamente italianas. Simples e ao mesmo tempo diferente. Bom apetite!

Ingredientes para a gremolata (um mix de condimentos)
• 3 colheres (de sopa) de salsinha picada
• 1 colher (de sopa) de casca de limão ralada
• 1 colher (de sopa) de pão esfarelado
• ½ colher (de sopa) de alho picado
• Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora

Ingredientes para os medalhões e o molho
• 1 colher (de sopa) de azeite de oliva extravirgem
• 6 medalhões de vitelo (cada um com 50 g aproximadamente)
• 2 colheres (de sopa) de manteiga sem sal, cortada em pedacinhos
• 1 chalota pequena, bem picada, lavada e enxuta
• ¼ xícara de vinho branco seco
• 1 xícara de caldo de galinha
• 1 tomate pelado em conserva
• 1 colher (de sopa) de azeitonas pequenas sem caroço e picadas

Ingredientes para a polenta
• ½ xícara de polenta instantânea
• Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora
• Água (a quantidade indicada na embalagem da polenta)

Prepare a gremolata: misture duas colheres da salsinha, a casca de limão, os farelos de pão e o alho. Tempere com sal e pimenta.
Prepare os medalhões e o molho: aqueça o forno em temperatura alta. Aqueça o azeite de oliva numa frigideira. Tempere os medalhões com sal e pimenta e coloque-os na frigideira em fogo alto. Deixe dois minutos de cada lado para ficar mal passado; ou mais tempo, se preferir mais ao ponto. Passe os medalhões para uma assadeira, salpique a gremolata sobre eles e por cima coloque os pedaços de manteiga. Reserve. Na panela onde fritou os medalhões, em fogo médio, coloque a chalota e mexa por um ou dois minutos, raspando o fundo. Adicione o vinho e deixe evaporar. Coloque o caldo e deixe reduzir à metade. Salpique o restante da salsinha, o tomate e as azeitonas. Corrija o tempero de sal e pimenta, se necessário, e reserve.
Para a polenta, siga as indicações da embalagem, mexendo na panela até que fique cremosa (uns cinco minutos). Se ela não vem temperada, acrescente sal e pimenta.
Para servir: leve a assadeira com os medalhões ao forno somente o tempo de dourar a gremolata, cerca de três minutos. Coloque em cada prato três medalhões, a polenta e o molho.

Sugestão: sobremesa Pêras em calda com especiarias (servidas com creme inglês)

Ingredientes para a pêra
• 5 pêras maduras e firmes
• ½ litro de água
• 2 xícaras de açúcar
• 1 fava de baunilha
• 2 anises-estrelados
• 5 grãos de cardamomo
• 400 ml de vinho tinto seco
• suco de 1 limão
• papel-manteiga (corte em círculo, no diâmetro da panela)
Modo de fazer: descasque as pêras, corte ao meio e retire o miolo. Se desejar, deixe-as inteiras e mantenha o cabinho. Misture os demais ingredientes e leve à fervura, adicione as pêras e cubra com papel manteiga (para não escurecer as partes expostas ao ar); reduza o fogo e cozinhe lentamente até que fiquem cozidas e macias. Retire as pêras, reduza a calda a ponto de xarope e côe. Sirva com o creme inglês.

Ingredientes para o creme inglês
• 250 ml de leite
• 3 gemas
• 1/2 xícara (chá) de açúcar
• 1 colher de essência de baunilha

Modo de fazer: misture as gemas numa tigela. Ferva o leite com o açúcar e a baunilha. Jogue, aos poucos, o leite quente sobre as gemas. Volte tudo para o fogo bem baixo, mexendo até engrossar um pouco. Não deixe ferver, pois o creme pode talhar facilmente. Espere esfriar e sirva com as pêras.

Anúncios

Entry filed under: artigos.

Caça a marido – EUA Anéis de noivado de contos de fadas da Disney

1 Comentário Add your own

  • 1. *.*Aline*.*  |  novembro 19, 2009 às 6:42 pm

    Eu AMEI todo o texto. Estou prestes á me casar(mês que vem) e estou com aquele medinho de não conseguir manter o relacionamento por longos e felizes anos.Esse texto me ajudou muuuito!Vc é super legal!Bjs

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Agenda

outubro 2009
S T Q Q S S D
« set   nov »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Most Recent Posts


%d blogueiros gostam disto: